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Os bons realizadores criam uma atmosfera

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 17.02.16

É o primeiro filme que vejo de James Gray. E vi-o por acaso num dos canais da Fox. Two Lovers traduzido para Duplo Amor.

Este é um filme que não consigo classificar, que escapa a qualquer classificação. É um encontro feliz entre um bom realizador e bons actores.

Aqui não é o argumento que sobressai, embora seja um bom argumento. Alguns dias na vida de pessoas simples. As suas alegrias e as suas tragédias. Aqui o que sobressai é a realização, que consegue criar uma atmosfera, a sua atmosfera.

Alguém transporta um saco de lavandaria, vemos esse saco baloiçar enquanto acompanhamos de muito perto esse alguém. A imagem distancia-se e vemo-lo de longe. Está parado num promontório de uma baía. Percebemos que se vai atirar antes de ver a sua queda na água. O filme começa assim, um mergulho no escuro.

Joaquin Phoenix é Leonard, veste-lhe a pele, vive o seu quotidiano. O amor dos pais já não é suficiente. Rejeitado há dois anos pela noiva, mantém a sua fotografia no quarto. O trabalho na lavandaria do pai também não o satisfaz. Mas gosta dos pais e não os quer magoar.

Leonard conhece Sandra no jantar familiar, na mesma noite da sua tentativa de suicídio. Mostra-lhe as suas fotografias - o seu sonho é ser fotógrafo - e aceita o convite da família Cohen para fotografar o Bar Mitzvah do filho mais novo. O namoro com Sandra irá desenvolver-se como um fio protector que o mantém a salvo até ao último momento. 

Nas vidas simples de pessoas simples também existem dramas e tragédias. E encontros fatídicos. E a atracção pelo abismo. No caso de Leonard, o encontro com Michelle. Leonard passa a gravitar à sua volta. Ainda resiste a essa paixão mas, como dirá à mãe, quase num soluço: "Tenho de ir, mãe."

 

O cinema respira neste filme. Na aproximação e afastamento da câmara, no ritmo, na direcção de actores, na atmosfera que cria, e no seu minimalismo. Quase lembra Ingmar Bergman.

 

 

 

 

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publicado às 14:40

A inteligência original e as suas infinitas possibilidades

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 23.10.08

 

Pensava que a única grande contrariedade de Beethoven tinha sido a surdez. Mas não.

Uma infância de maus tratos (um pai violento).

Uma juventude em que revela o seu carácter obsessivo, possessivo, ciumento e cruel.

Até à velhice são paixões, desencontros amorosos, decepções, sofrimento, humilhações.

Conhecerá a doçura. Mas muito mais tarde. E não por muito tempo.

 

Immortal Beloved fala-nos essencialmente de um amor secreto de Beethoven. Uma das mulheres que passaram na sua vida terá sido por ele amada de forma intensa, excessiva, inteira.

O filme está construído de uma forma engenhosa. Há uma personagem que serve de elo de ligação com o passado. E há uma carta para uma única destinatária.

As mulheres da vida de Beethoven revelam, curiosamente, diferentes dimensões da natureza feminina: a mulher-companheira e que procria; a mulher sensual e sofisticada; a mulher forte e terna, porto-de-abrigo.

Também engenhosa a forma como as suas peças musicais acompanham as cenas mais significativas, as emoções e os sentimentos envolvidos.

 

Mas não é esta a minha parte preferida do filme. Foi Beethoven-criança, a sua incrível inteligência original, que não tem limites nem fronteiras.

Essa qualidade universal da inteligência que geralmente se perde pelo caminho da domesticação e normalização social. E no caso do nosso Beethoven... da estupidez e violência. Que ele vence. O que, só por si, é um verdadeiro milagre.

E isso é doloroso de ver. O filme dá mesmo a entender que a sua surdez terá sido provocada pelos maus tratos do pai e que se terá agravado com a idade.

Registei para sempre a correria nocturna da criança pela floresta, que aqui nos surge como acolhedora, até chegar a um lago e nele entrar e ficar a flutuar enquanto fixa os pontos luminosos de um universo infinito...

É essa imagem que me fica do filme. Uma criança a flutuar no lago e a fixar um céu de pontinhos luminosos.

É esse Hino à Alegria que nos leva de imediato a um tempo-espaço onde não havia limites nem fronteiras nem violência. A um tempo-espaço em que estamos todos estranhamente irmanados por uma inteligência universal que tudo envolve e que se expande.

É também para esse tempo-espaço que Beethoven, na sua surdez desesperada, consegue transportar-se. Beethoven mantém essa inteligência original. Esse é o verdadeiro milagre. Essa inteligência original vence a surdez, a violência, as suas tempestades interiores.Foi assim que eu o vi.É que a vida e a nossa terrível natureza está sempre a puxar-nos para a mediocridade e a negação dos sonhos. É preciso puxar ao contrário, contrariar o conformismo. E fixar o olhar no infinito.

 

 

 

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publicado às 16:19


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